DWV News BannerDWV News
Vendas e Educação

O imóvel que vende não é necessariamente o melhor produto. É o que tem a melhor tese.

Em um mercado mais seletivo, incorporar não é apenas escolher localização, metragem e acabamento. É construir uma proposta que faça sentido para o capital de quem compra.

Katya Treiger

29 de setembro, 2026

O imóvel que vende não é necessariamente o melhor produto. É o que tem a melhor tese.

O mercado imobiliário brasileiro continua mostrando uma característica que merece mais atenção: demanda existe, mas ela não se distribui de forma automática entre todos os produtos.

No primeiro semestre de 2026, as vendas de imóveis residenciais novos cresceram 5,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os lançamentos ficaram praticamente estáveis, com queda de 0,3%. No segundo trimestre, foram vendidas 113.676 unidades e lançadas 107.161.

Os números mostram um mercado que continua absorvendo produtos, mas também ajudam a revelar uma diferença importante: vender não significa necessariamente que qualquer produto esteja encontrando demanda.

A pergunta que o incorporador deveria fazer antes de lançar um empreendimento, portanto, não é apenas “quanto consigo vender?”. É outra: “Por que alguém deveria comprar este produto, neste momento, nesta região e por este preço?”.

Essa resposta é a tese do produto.

Durante muito tempo, a construção da oferta imobiliária esteve concentrada em atributos relativamente objetivos: localização, número de dormitórios, metragem, lazer, acabamento, fachada e preço. Todos continuam importantes. O problema é quando esses elementos são apresentados como se, sozinhos, fossem suficientes para explicar uma decisão de compra.

Hoje, principalmente quando o público é investidor, existe uma camada adicional na decisão. O comprador quer entender o que está por trás do imóvel. Quer saber se existe demanda naquela região, quem vai ocupar aquela unidade, de onde pode vir a renda, quais fatores podem contribuir para a valorização e qual é o custo de oportunidade de colocar aquele capital naquele ativo.

Isso não significa transformar todo imóvel em uma planilha financeira. Significa entender que o produto precisa responder a uma lógica.

Um empreendimento próximo a uma nova infraestrutura pode ter uma tese de valorização. Um projeto em uma região com forte demanda de locação pode ter uma tese de renda. Um produto compacto em uma área de grande circulação pode ter uma tese ligada à liquidez. Um empreendimento voltado ao público de segunda residência pode ter uma tese baseada em turismo, uso próprio e locação.

A localização, nesse caso, deixa de ser apenas um endereço. Ela passa a ser parte da tese.

O mesmo vale para o preço. Preço baixo não é necessariamente oportunidade. Um imóvel pode ser barato e continuar sendo um ativo pouco atrativo. Da mesma forma, um produto mais caro pode fazer sentido se houver uma combinação de demanda, escassez, renda e perspectiva de valorização que sustente aquele valor.

É por isso que a tese precisa nascer antes do lançamento, e não depois, quando a equipe de vendas recebe o material de divulgação.

O produto precisa responder a uma pergunta simples

Imagine dois empreendimentos semelhantes, na mesma cidade e com preços próximos.

Um deles é apresentado com uma lista de características: dois dormitórios, varanda, lazer completo, uma vaga e determinada metragem.

O outro apresenta esses mesmos atributos, mas consegue explicar por que aquela região está atraindo determinada demanda, quais transformações estão acontecendo no entorno, qual é o perfil de quem procura aquele tipo de imóvel e quais dados sustentam a expectativa de ocupação ou valorização.

Os dois podem ser bons produtos. Mas apenas um deles apresentou uma razão para ser comprado.

É essa diferença que separa a característica de argumento.

E os dados recentes do mercado reforçam a importância dessa discussão. No segundo trimestre de 2026, a oferta final de imóveis residenciais novos no país era de 355.290 unidades. Ao mesmo tempo, as vendas cresceram 5,3% na comparação com o segundo trimestre de 2025.

Em um ambiente assim, não basta colocar mais um produto na prateleira. É preciso entender qual demanda ele pretende capturar.

O incorporador que olha apenas para o estoque pode enxergar unidades disponíveis. Quem olha para a demanda consegue enxergar oportunidades.

A tese também precisa caber no preço

Um erro comum é construir uma boa narrativa de produto sem verificar se ela suporta o preço pedido.

Não adianta falar em valorização se a região não apresenta fundamentos que sustentem essa expectativa. Não adianta falar em renda se a demanda de locação não comporta o valor do imóvel. Não adianta vender escassez se existe uma oferta relevante de produtos semelhantes chegando ao mercado.

Tese não é discurso. Uma tese é uma hipótese sustentada por evidências.

Se a tese é infraestrutura, é preciso mostrar quais obras estão previstas, em que estágio estão e qual pode ser o impacto sobre a região. Se é renda, olhar para aluguel, ocupação e perfil da demanda. Se é escassez, entender estoque, terrenos disponíveis e restrições de ocupação. Se é valorização, comparar preços, oferta, demanda e histórico.

É uma mudança de postura: menos promessa e mais demonstração.

E existe uma consequência direta para o corretor.

O corretor que recebe um produto pronto e tenta encontrar um comprador depois está trabalhando de trás para frente. O profissional que entende a tese consegue identificar, antes, quem tem aderência àquele produto.

Isso muda inclusive a abordagem comercial. Em vez de começar pela pergunta “você está procurando imóvel?”, a conversa pode começar pela identificação do objetivo: proteção patrimonial, geração de renda, segunda residência, diversificação, moradia ou valorização de capital.

A partir daí, o produto deixa de ser apresentado para todo mundo da mesma maneira.

O mesmo apartamento pode ser moradia para uma pessoa, segunda residência para outra e investimento para uma terceira. O imóvel é o mesmo. A tese de compra é diferente.

O desafio do mercado imobiliário é justamente fazer essa conexão.

O crédito também faz parte da tese

Outro ponto que costuma ficar separado da discussão sobre produto é o crédito. Mas, em um mercado em que o custo do dinheiro interfere diretamente na decisão, a estrutura de capital também precisa entrar na conta.

O financiamento imobiliário pelo SBPE alcançou R$ 67,2 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 12% em relação ao mesmo período de 2025. No financiamento destinado à construção, o avanço foi ainda maior: de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões, alta de 107%.

Os números mostram que crédito e produto não podem ser tratados como assuntos independentes.

O produto precisa ser viável para quem desenvolve, financiável para quem compra e coerente com o retorno que o cliente espera obter.

Isso vale especialmente para o investidor, que compara o imóvel com outras alternativas de alocação de capital. A competição não acontece apenas entre empreendimentos. Acontece entre diferentes destinos possíveis para o dinheiro.

Por isso, o melhor produto não é necessariamente aquele que tem mais atributos. É aquele que consegue responder melhor à pergunta: “Por que este ativo faz sentido para este comprador?”.

Da incorporação à tese

Essa mudança começa antes da obra. Começa na decisão sobre qual produto desenvolver.

Antes de escolher a metragem, é preciso entender a demanda. Antes de definir o preço, entender o público. Antes de montar a campanha, entender a tese. E, antes de treinar a equipe comercial, garantir que os argumentos estejam sustentados por dados.

No fim, incorporar é também fazer uma escolha sobre qual capital se pretende atrair.

O mercado imobiliário está ficando mais financeiro justamente porque o comprador passou a comparar melhor. O cliente não olha apenas para o imóvel. Ele olha para o que poderia fazer com aquele dinheiro se não comprasse o imóvel.

É nesse ponto que uma boa tese deixa de ser ferramenta de marketing e passa a ser parte do próprio produto.

Porque o imóvel que vende não é necessariamente o mais bonito, o maior ou o mais barato. É aquele em que o comprador consegue enxergar uma lógica para colocar seu dinheiro.

E quanto mais caro fica o capital, mais importante fica explicar essa lógica.

Por Katya Treiger
Especialista em mercado financeiro e mercado imobiliário, sócia da Ville Capital – XP Inc. e fundadora da Ciência da Incorporação.

Atua conectando estratégia patrimonial, crédito e investimentos ao setor imobiliário, treinando corretores, incorporadoras e investidores para um mercado cada vez mais financeiro.

Fontes: CBIC/Brain Inteligência Estratégica – Indicadores Imobiliários Nacionais do 2º trimestre de 2026; CBIC – dados de financiamento imobiliário pelo SBPE no 1º semestre de 2026.

Comentários